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domingo, 5 de junho de 2016

Maria Adriana / Bisa


Bisa

(Fotografia Original)



Maria Adriana da Silva nasceu na cidade de Mateus Leme (MG), no ano de 1879, oito anos após ser promulgada a “Lei do Ventre Livre” e assinada pela Princesa Isabel, essa Lei considerava livre todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir da data de 28 de setembro de 1871. O fato controverso seria já nos primeiros parágrafos da Lei que dizia:  
§ 1º Os ditos filhos menores ficarão em poder o sob a autoridade dos senhores de suas mãis, os quaes terão obrigação de crial-os e tratal-os até a idade de oito annos completos.  Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãi terá opção, ou de receber do Estado a indemnização de 600$000, ou de utilisar-se dos serviços do menor até a idade de 21 annos completos.  No primeiro caso, o Governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei.  A indemnização pecuniaria acima fixada será paga em titulos de renda com o juro annual de 6%, os quaes se considerarão extinctos no fim de 30 annos.  A declaração do senhor deverá ser feita dentro de 30 dias, a contar daquelle em que o menor chegar á idade de oito annos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbitrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor. (planalto)
Os pais continuariam escravos, todavia, a Lei estabelecia duas possibilidades para os que nasciam após esta data de 1871: uma de que poderiam ficar aos cuidados dos seus senhores até a idade de 21 anos e a outra, seriam entregues aos cuidados do governo. O primeiro caso, era o mais usado, porque, beneficiava os senhores que queriam usar a mão de obra destes “livres” até a idade de 21 anos, todavia, não deixou de ser uma tentativa de luta contra o sistema de escravidão.
Mediante pesquisa no Cartório de Registro de Mateus Leme, encontrei a certidão de casamento de  Maria Adriana da Silva  com os seguintes dizeres:


CERTIDÃO DE CASAMENTO
Sob o n°157, fls 106 Vº a 107 do livro nº 1-B
“ Ao primeiro dia do mês de Maio de mil oitocentos e noventa e oito, às doze horas do dia, em casa do cidadão José Thomas de Andrade, primeiro Juiz de Paz e Presidente dos casamentos civil, e comigo escrivão interino de paz e dos Casamentos civil, foram recebidos em matrimônio JOÃO BERNADO DA SILVA, de idade vinte annos, lavrador, solteiro, filho legítimo de Camillo Honorato da Silva e Maria Lucas da Silva, já falecida, com MARIA ADRIANNA DA SILVA, de idade de dezenove annos, serviços domésticos, solteira, filha ilegítima de Francisca Claudina da Silva, moradores deste distrito, tudo presente as testemunhas José Diniz Moreira dos Santos, agricultor, e Joaquim Cândido França, carpinteiro, maiores de vinte  e um annos, moradores deste distrito. Em firmeza do que eu Joaquim Silvino de Aguiar, este acto, e vai assignado, e pelo nubente não saber assignar, assina a seu arrogo, Francisco Alves Diniz, e testemunhas com o Juiz o acto matrimonial. Eu   Joaquim Silvino de Aguiar o escrivão, o escrevi (aa). O presidente José Thomás de Andrade (aa). A arrogo do nubente: Francisco Alves Diniz (aa). Maria Adrianna da Silva (aa). Testemunhas: José Diniz Moreira dos Santos (aa) e Joaquim Cândido França (aa). ”   
O referido é verdade, do que dou fé.
Mateus Leme – MG, primeiro de maio 1898.

Maria Adriana da Silva era chamada carinhosamente de “Bisa” e, segundo testemunhos da família, sua mãe Francisca Claudina da Silva foi escrava do Cel. Thomaz de Andrade, pai do Dr. Tomaz de Andrade, nascido em 1908, que residiu e trabalhou como advogado até o ano de 1920, na cidade de Itaúna. (Dornas Filho, p.89)
 Com a idade já avançada, Maria Adriana estava residindo em Itaúna, em casa de seu filho Aristides de Aquino, à rua Santo Agostinho de número 67, bairro Graças.  Segundo testemunhos de seus netos, Bisa contava muitas histórias e uma dessas,seria sobre a filha do Cel. Tomaz de Andrade, que a teria ensinando ela a ler e a escrever ainda muito nova. Disse também que a família Andrade era muito boa e que sempre tratou bem tanto ela quanto sua mãe.
Quando foi assinada a Lei Áurea, em 1888, pela princesa Isabel, abolindo a escravidão, Maria Adriana tinha 9 anos de idade e sua mãe, após receber a notícia de que estariam libertas e podendo ir embora da fazenda, optaram por ficar.
Na cidade de Itaúna, após vários anos, Maria Adriana ainda cultivava sólida amizade com a família Andrade, vindo a falecer com 91 anos de idade, aos quatro dias do mês de maio do ano de 1970, às 8 horas da manhã, conforme consta na certidão de óbito, todavia, a família acredita que teria falecido com mais de 100 anos. A causa de sua morte foi "insuficiência cardiorrenal e escleroses generalizadas", sendo o Dr. Tomas Moreira de Andrade, que atestou o seu óbito, e seu corpo sepultado no cemitério municipal da cidade.
Fato interessante sobre a certidão de casamento foi constatar que Maria Adriana era alfabetizada e o documento possuía assinatura de próprio punho, no entanto, seu marido precisou de um “arrogo” para assinar. Ao verificar a documentação de casamento no cartório e a assinatura da Bisa, deixo aqui registrada a satisfação de  ter resgatado um pouco de sua história e a notícia de que ela era possuidora de uma  belíssima caligrafia!
Maria Adriana da Silva foi a matriarca da família Aquino em Itaúna, sua força e caráter influenciaram na formação de toda uma geração.


Charles Aquino
05/06/2016

Fontes:


FILHO. João Dornas. Efemérides Itaunenses. Ed João Calazans. BH. 1951,p.89

Cartório de Paz e do Registro Civil / Mateus Leme (MG)

Testemunhos: Família Aquino


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