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terça-feira, 14 de junho de 2016

Francisco crioulo

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MORRO DO ROSÁRIO ITAÚNA
1852

Livro de Óbito


Francisco
(Inocente de um ano)


Aos sete de Fevereiro de mil oitocentos cincoenta e dois na Capela do Rosário foi sepultado o cadáver de Francisco, crioulo, inocente[1], filho legítimo de João Rodrigues dos Santos e Maria Inocência de Jesus.
E para constar faço este assento em que me assigno.
O vigário encomendado João Batista de Miranda


[1] Faixas temporais: “velho”, “inocente”, “recém-nascido” e “sem referência”.
Em muitos registros a classificação por faixa etária está acompanhada da idade numérica. A partir destas anotações pode-se chegar à conclusão de que os “inocentes” correspondem às crianças de até 12 anos, e os “sem referência” aos adultos (dos 14 até os 50/60 anos).

MORALES. Walter Fagundes. MOI. Flávia Prado. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, SP, 2008, p.125.

Fonte:
"Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica, 1706-1999," images, FamilySearch , Itaúna > Santana > Óbitos 1840, Jan-1888, Fev > image 2 of 92; Paróquias Católicas, Minas Gerais (Catholic Church parishes, Minas Gerais).
Acesso em> https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-1-14765-55580-26?cc=2177275 : 22 May 2014

domingo, 12 de junho de 2016

Vocabulário Quimbundo: Parte II


VOCABULÁRIO QUIMBUNDO

Parte II


E é coisa curiosa a examinar o povoado do Catumba, que se me afigura às ruínas de considerável quilombo. Ainda hoje só é habitado por pretos que só falam entre si o quimbundo [...].
Ainda me lembro bem de vários tipos populares negros, hoje desaparecidos, que serviam de tróça para os moleques de Itaúna. Eram pretos de ascendência africana, si não direta, pelo menos muito próxima. E como era costume aditar ao nome do negro o da nação a que pertencia, chamavam a esses pretos Vicente Bunda[1], Chico Bié, Cristina Bunduda, sendo que esta me parece Kakuana, pela pequena estatura e a monstruosa esteatopigia[2] que apresentava.
Língua de formação bem rudimentar ainda, o congoês, pelos seus dialetos, não possue os atributos e as flexões que apresentam as línguas mais evoluídas como o português. Por isso, o quimbundo que surpreendí em Minas recorre sempre ao português nos casos em que o dialeto não possue recurso para a expressão. Estão neste caso os artigos demonstrativos, as conjunções, etc. Aliás, utilizam esses recursos em casos absolutamente indispensáveis por motivo de clareza. O dialeto não os possue. Quando querem dizer:  - “ O João fala muito bem a língua de preto”, se expressam assim: - “João oméra navuro quiapossóca undaca de quimbundo”.
A formação do feminino também é de simplicidade infantil. Resume-se em ajuntar a palavra -  mulher (ocaia ou mandumba) ao subistantivo a ser modificado: - rei (vicóra), Rainha (ocaia do vicóra) – mulher do rei. Porco (camguro), porca (mandumba do canguro)[3].
O número de verbos é reduzidíssimo e nunca flexionam para as diversas expressões de tempo e modo. A compreensão exata da frase se consegue pelo assunto de que trata a oração. Cachia, por exemplo, é o infinito do verbo chegar. E a frase: O cuêto vindêro cachia no curimã , que dizer: -  o branco está chegando no serviço ...




[1] É interessante o fenômeno que se deu com esta palavra no Brasil. Bunda ou M’bunda pe adjetivo gentílico de um povo bántu. Por extensão, empregavam-na com a significação de ruim, feio, reles, inferior. E por isso é empregada vulgarmente para designar a anatomia posterior aos ossos da bacia (nádegas) ...
[2] Esteatopigia é um termo médico que define o acúmulo de gordura nas nádegas.
[3] Quer me parecer que mandumba eles empregam quando se tratam de irracionais e vicóra quando de gente.


Fonte: FILHO, João Dornas. A Influência Social do Negro Brasileiro. Ed.Guaíra, São Paulo, 1942, p.72-73. 

Lei 10.639




Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos

LEI No 10.639, DE 9 DE JANEIRO DE 2003.

Mensagem de veto

        Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências.

        O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

        Art. 1o A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A, 79-A e 79-B:

"Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

§ 3o (VETADO)"

"Art. 79-A. (VETADO)"

"Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’."

        Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

        Brasília, 9 de janeiro de 2003; 182o da Independência e 115o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque



Referências:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm
http://slideplayer.com.br/slide/390140/
http://etnicoracial.mec.gov.br/10-menu-principal/82-10-anos-da-lei-10-639-03
http://www.pedagogiagm.unir.br/downloads/5251_novas_diretrizes_curriculares_para_o_estudo_da_historia_e_da_cultura_afro_brasileira_e_africana___lei_10.639___2003.pdf

Censo 1831 Itaúna


RECENSEAMENTO EM ITAÚNA 1831
(Estimativa)


A freguesia foi dividida em 16 quarteirões, cada um com 25 fogos, totalizando 400 fogos. Em cada fogo[1] fazia-se o levantamento de todos residentes, inclusive filhos casados e escravos.
O recenseamento buscava conseguir os seguintes dados: número de quarteirões em cada freguesia; 25 fogos em cada quarteirão; nome dos habitantes de cada fogo; a qualidade do habitante, se era branco, pardo, preto, africano, crioulo ou cabra; sua condição, se era livre ou escravo; legítimo ou exposto[2]; idade, estado, se casado ou solteiro e ocupação.

BRANCOSA
843
MULATOSB
869
CRIOULOSC
552
PRETOSD
448
AFRICANOSE
45

TOTAL

2.757

A: Descendentes de portugueses;
B: Miscigenação brancos/africanos;
C: Filhos de africanos ou pretos nascidos no Brasil;
D: Africanos trazidos em navios negreiros contrabandeados;
E: Nascidos no continente africano trazidos em navios e registrados.



[1] Casa de residência ou que pertencia à casa ou família, lareira, fogão e por extensão, lar ou domicílio.
[2] Recém-nascido abandonado pela mãe em outra casa; enjeitado. Geralmente eram colocados na portas das casas, entregues a orfanatos administrados por freiras.  



Referências:

ITAÚNA: Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa: Itaúna em Detalhes. 2003, p.22.

http://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/

Foto: Jean Baptiste Debret

domingo, 5 de junho de 2016

Maria Adriana / Bisa


Bisa

(Fotografia Original)



Maria Adriana da Silva nasceu na cidade de Mateus Leme (MG), no ano de 1879, oito anos após ser promulgada a “Lei do Ventre Livre” e assinada pela Princesa Isabel, essa Lei considerava livre todos os filhos de mulheres escravas nascidos a partir da data de 28 de setembro de 1871. O fato controverso seria já nos primeiros parágrafos da Lei que dizia:  
§ 1º Os ditos filhos menores ficarão em poder o sob a autoridade dos senhores de suas mãis, os quaes terão obrigação de crial-os e tratal-os até a idade de oito annos completos.  Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãi terá opção, ou de receber do Estado a indemnização de 600$000, ou de utilisar-se dos serviços do menor até a idade de 21 annos completos.  No primeiro caso, o Governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei.  A indemnização pecuniaria acima fixada será paga em titulos de renda com o juro annual de 6%, os quaes se considerarão extinctos no fim de 30 annos.  A declaração do senhor deverá ser feita dentro de 30 dias, a contar daquelle em que o menor chegar á idade de oito annos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbitrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor. (planalto)
Os pais continuariam escravos, todavia, a Lei estabelecia duas possibilidades para os que nasciam após esta data de 1871: uma de que poderiam ficar aos cuidados dos seus senhores até a idade de 21 anos e a outra, seriam entregues aos cuidados do governo. O primeiro caso, era o mais usado, porque, beneficiava os senhores que queriam usar a mão de obra destes “livres” até a idade de 21 anos, todavia, não deixou de ser uma tentativa de luta contra o sistema de escravidão.
Mediante pesquisa no Cartório de Registro de Mateus Leme, encontrei a certidão de casamento de  Maria Adriana da Silva  com os seguintes dizeres:


CERTIDÃO DE CASAMENTO
Sob o n°157, fls 106 Vº a 107 do livro nº 1-B
“ Ao primeiro dia do mês de Maio de mil oitocentos e noventa e oito, às doze horas do dia, em casa do cidadão José Thomas de Andrade, primeiro Juiz de Paz e Presidente dos casamentos civil, e comigo escrivão interino de paz e dos Casamentos civil, foram recebidos em matrimônio JOÃO BERNADO DA SILVA, de idade vinte annos, lavrador, solteiro, filho legítimo de Camillo Honorato da Silva e Maria Lucas da Silva, já falecida, com MARIA ADRIANNA DA SILVA, de idade de dezenove annos, serviços domésticos, solteira, filha ilegítima de Francisca Claudina da Silva, moradores deste distrito, tudo presente as testemunhas José Diniz Moreira dos Santos, agricultor, e Joaquim Cândido França, carpinteiro, maiores de vinte  e um annos, moradores deste distrito. Em firmeza do que eu Joaquim Silvino de Aguiar, este acto, e vai assignado, e pelo nubente não saber assignar, assina a seu arrogo, Francisco Alves Diniz, e testemunhas com o Juiz o acto matrimonial. Eu   Joaquim Silvino de Aguiar o escrivão, o escrevi (aa). O presidente José Thomás de Andrade (aa). A arrogo do nubente: Francisco Alves Diniz (aa). Maria Adrianna da Silva (aa). Testemunhas: José Diniz Moreira dos Santos (aa) e Joaquim Cândido França (aa). ”   
O referido é verdade, do que dou fé.
Mateus Leme – MG, primeiro de maio 1898.

Maria Adriana da Silva era chamada carinhosamente de “Bisa” e, segundo testemunhos da família, sua mãe Francisca Claudina da Silva foi escrava do Cel. Thomaz de Andrade, pai do Dr. Tomaz de Andrade, nascido em 1908, que residiu e trabalhou como advogado até o ano de 1920, na cidade de Itaúna. (Dornas Filho, p.89)
 Com a idade já avançada, Maria Adriana estava residindo em Itaúna, em casa de seu filho Aristides de Aquino, à rua Santo Agostinho de número 67, bairro Graças.  Segundo testemunhos de seus netos, Bisa contava muitas histórias e uma dessas,seria sobre a filha do Cel. Tomaz de Andrade, que a teria ensinando ela a ler e a escrever ainda muito nova. Disse também que a família Andrade era muito boa e que sempre tratou bem tanto ela quanto sua mãe.
Quando foi assinada a Lei Áurea, em 1888, pela princesa Isabel, abolindo a escravidão, Maria Adriana tinha 9 anos de idade e sua mãe, após receber a notícia de que estariam libertas e podendo ir embora da fazenda, optaram por ficar.
Na cidade de Itaúna, após vários anos, Maria Adriana ainda cultivava sólida amizade com a família Andrade, vindo a falecer com 91 anos de idade, aos quatro dias do mês de maio do ano de 1970, às 8 horas da manhã, conforme consta na certidão de óbito, todavia, a família acredita que teria falecido com mais de 100 anos. A causa de sua morte foi "insuficiência cardiorrenal e escleroses generalizadas", sendo o Dr. Tomas Moreira de Andrade, que atestou o seu óbito, e seu corpo sepultado no cemitério municipal da cidade.
Fato interessante sobre a certidão de casamento foi constatar que Maria Adriana era alfabetizada e o documento possuía assinatura de próprio punho, no entanto, seu marido precisou de um “arrogo” para assinar. Ao verificar a documentação de casamento no cartório e a assinatura da Bisa, deixo aqui registrada a satisfação de  ter resgatado um pouco de sua história e a notícia de que ela era possuidora de uma  belíssima caligrafia!
Maria Adriana da Silva foi a matriarca da família Aquino em Itaúna, sua força e caráter influenciaram na formação de toda uma geração.


Charles Aquino
05/06/2016

Fontes:


FILHO. João Dornas. Efemérides Itaunenses. Ed João Calazans. BH. 1951,p.89

Cartório de Paz e do Registro Civil / Mateus Leme (MG)

Testemunhos: Família Aquino


sábado, 4 de junho de 2016

Thereza crioula

(clicar para ampliar)


MORRO DO ROSÁRIO ITAÚNA
1852

Livro de Óbito



Thereza crioula
(Inocente )



Aos vinte e cinco de janeiro de mil oitocentos e cincoenta e dois, foi sepultado no adro do Rosário o cadáver de Thereza crioula inocente [1], escrava de João Gomes Moreira. E para constar faço este assento em que me assigno.
O vigário encomendado João Batista de Miranda


[1] Faixas temporais: “velho”, “inocente”, “recém-nascido” e “sem referência”.
Em muitos registros a classificação por faixa etária está acompanhada da idade numérica. A partir destas anotações pode-se chegar à conclusão de que os “inocentes” correspondem às crianças de até 12 anos, e os “sem referência” aos adultos (dos 14 até os 50/60 anos). Quanto à faixa etária “velhos”, refere-se aos cativos com mais de 60/65 anos.
MORALES. Walter Fagundes. MOI. Flávia Prado. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, SP, 2008, p.125.

Fonte:
"Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica, 1706-1999," images, FamilySearch > : accessed 3 June 2016), Itaúna > Santana > Óbitos 1840, Jan-1888, Fev > image 1 of 92; Paróquias Católicas, Minas Gerais (Catholic Church parishes, Minas Gerais).
Disponível em>  https://familysearch.org/pal:/MM9.3.1/TH-1-14765-55428-21?cc=2177275

Custódio Coelho Duarte



TESTAMENTO DO CAPITÃO CUSTÓDIO COELHO DUARTE 
1830



"Declaro que dei eu a minha mulher dois escravos huma a Manoel Ribeiro de nome Francisco e outra a Francisco Marques de nome Margarida os quais seram avalliados por minha morte e entrara a meta de seus vallores da minha terça e assim mais huma escrava que forrei de nome Anna de nasçam criolla entrara a minha terça vinte e sinco mil reis a meu escravo Joam criollo para ajuda de sua liberdade e deixo a Lourenço outros vinte e sinco mil reis tambem para o mesmo fim. E deixo a meu escravo Pedro pardo para o mesmo fim vinte e sinco mil reis que será pago da terça."



Santa Anna São João Acima 
(Itaúna)

Registro do Testamento com que falesceo na Aplicação de Sta. Anna de S. João Acima o Capm. Custodio Coelho Duarte falescido a 28 de julho de 1830 de quem he testamenteiro o primeiro nomeado Nicolau Coelho Duarte e 2 annos para contas.
Em nome de Deus amem=Folhas huma Sousa=Testamento de Custodio Coelho Duarte= Anno de Nascimento de Nossos Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e trinta aos catorze dias do mes de janeiro do ditto anno nesta paragem chamada a Matta do Cedro onde prezentemente sou morador Aplicaçam de Santa Anna de Sam Joam Assima termo da Villa de Pitangui comarca de Sabara. Por me achar em avançada idade e prezentemente doente e em meu perfeito juizo determino fazer meu testamento o qual he na forma seguinte= Declaro sou natural do Reino de Portugal da freguezia de Santa Eulalia de Sabroza bispado do Porto comarca de Penafiel. Sou filho legitimo de Manoel Jose Mendes e de Maria Coelho Duarte já falescidos. Declaro que sou casado com Angelica Nogueira Duarte filha legitima de Joam Nogueira Duarte e de Clara Maria de Asumpção de cujo matrimonio tive os filhos seguintes Joam, Nicolau e Camillo Custodia Umbelina e Clara= Declaro que tive mais dois filhos no tempo em que fui solteiro hum de nome Joaquim de Luiza Theodora de Oliveira já defunta e huma de nome Silvana com Luciana Maria de Jesus já defunta e aos quais instituo a todos por meus universais erdeiros= Declaro que instituo por meus testamenteiros em primeiro lugar a meu filho Nicolau Coelho Duarte em segundo a meu filho Camillo Coelho Duarte e em terceiro a meu filho Joam Coelho Duarte. E rogo a qualquer dos dittos que asceite ser meu testamenteiro de inteiro comprimento a todas expressoens e declaraçoens que no mesmo achar expreçado por ser esta a minha ultima e derradeira vontade= Declaro que logo que eu falescer meu corpo sera involto em habito da venerável ordem terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo de quem sou indigno irmam terceiro e serei sepultado em qualquer parage que suceder eu falecer fora da porta principal que nam he justo o depois de morto entre no santuário quem em vida semppre andou retirado delle serei unicamente encomendado e sepultado pello parocho ou quem suas vezes fizer e he minha vontade que nam quero onrras nenhumas de sepulturas nem pompas de qualidade alguma= Declaro que no dia de meu funeral mandara dizer meu testamenteiro huma missa de corpo prezente de esmolla de hum mil e duzentos e juntamente me mandara dizer logo coatro oitavas de missas seguidas de esmolla de septecentos e sincoenta. E mandara dizer mais des missas por alma em tençam de todos aquelles com que tive contas e mandara dizer mais des missas por todas as pessoas que eu fui a cauza delles asenderem a Deus idem por todos os meus escravos defuntos= Declaro que deixo escripto no meu Livro chamado de Razam tudo aquillo que nelle se acharem escripto e declarado que dei a meus filhos e filhas em terras escravos moveis e submoventes dinheiros seram obrigados a intrar ao monte mor com o vallor= Declaro que dei eu a minha mulher dois escravos huma a Manoel Ribeiro de nome Francisco e outra a Francisco Marques de nome Margarida os quais seram avalliados por minha morte e entrara a meta de seus vallores da minha terça e assim mais huma escrava que forrei de nome Anna de nasçam criolla entrara a minha terça vinte e sinco mil reis a meu escravo Joam criollo para ajuda de sua liberdade e deixo a Lourenço outros vinte e sinco mil reis tambem para o mesmo fim. E deixo a meu escravo Pedro pardo para o mesmo fim vinte e sinco mil reis que será pago da terça= Declaro que já mandei dar a meu netto Geraldo filho de minha filha Custodia sincoenta mil reis que entrara no vallor da terça= Deixo a minha afilhada Angelica filha de minha filha Umbelina lhe deixo sincoenta mil reis= Deixo a meu afilhado Camillo filho de meu filho Camillo sincoenta mil reis que igualmente elle junto com minha afilhada Angelica lhe seram dados da minha terça. Declaro que o que remanecer da minha terça repartira por meus filhos os seguintes Joaquim Joam Nicolau Camillo Custodia= Declaro que meu testamenteiro cobrara todas as dividas que se me dever como tambem pagara as que eu dever em tudo vai ativa e passiva sera obrigado a dar contas dentro em dois annos deixo de premio de seu trabalho cem mil reis. E nesta forma hei este meu testamento por acabado o qual mandei escrever por Miguel de Almeida e Oliveira o que vai somente por mim assignado. Rogo as justiças de Sua Magestade Imperial lhe de inteiro comprimento tanto em juizo como fora delle por esta minha ultima e derradeira vontade, Custodio Coelho Duarte.
Aprovaçam de Testamento= saibam quantos este publico instrumento de aprovaçam de testamento ou como em Direito milhor nome e lugar haja virem que sendo no anno de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e trinta nono da Independencia e do Imperio aos quinze dias do mes de março do ditto anno neste arraial da Senhora Santa Anna do Rio de Sam Joam Assima termo da Villa de Pitangui comarca da fidelissima Villa do Rio das Velhas de Sabara em o cartorio de mim escrivam ao diante nomiado e sendo ahi comparesseu prezente o capitam guarda mor Custodio Coelho Duarte que reconheço pelo proprio de que dou fe e por elle de saude e em perfeito juizo e entendimento ao meu parecer pellas respostas que me deu as perguntas que lhe fis em presença das testemunhas ao diante nomiadas e assignadas me foi dado este papel dizendo me que hera o seu solemne testamento e ultima dispoziçam de vontade que a seu rogo havia sido escripto por Miguel de Almeida e Oliveira e por elle testador assignado por lhe ter sido lido e estar a seu contento e que por elle revogava outro qualquer testamento ou codicillo que antes deste haja feito e por isso me pedio lho aceitase e aprovasse pello que lho aceitei e correndo por elle os olhos o achei estar escripto por coatro laudas com esta que principiei este instrumento e pello o achar sem emenda entrelinha borram vicio ou couza que duvida fassa o aceitei e rubriquei com minha rubrica que dis Souza e o aprovo e hei por aprovado tanto quanto posso devo em razam do meu officio sou obrigado sendo a tudo testemunhas prezentes Custodio Rodrigues de Souza Joam Martins da Cruz Manuel Pereira dos Santos Bernardino Jose de Senna Alexandre Emerencio de Souza pessoas livres e maiores de quatorze annos moradores desta Aplicaçam e de mim reconhecidos que assignam com o testador depois de lhe ser lido este instrumento por Joam Jose de Souza escrivam do juis de Paz como tal tabeliam de notas que o escrevi e assigno em publico e razo= Em testemunho da verdade estava o signal publico, Joam Jose de Souza, Custodio Coelho Duarte Custodio Rodrigues de Souza Joam Martins da Cruz Manoel Pereira dos Santos Bernardino Jose de Senna Alexandre Emerencio de Souza.
Abertura= o padre Jose Bernardino de Souza presbitero secular morador no arraial de Santa Anna do Rio de Sam Joam Assima sertifico que falesceu da vida prezente o capitam guarda mor Custodio Coelho Duarte com seu testamento e por estar distante da Villa de Pitangui doze legoas o abri em prezença das testemunhas abaixo assignadas para saber o que determinava o dito testamento sobre o seu funeral por assim ser verdade mandei passar este termo de Abertura por Antonio Lopes Cansado e vai por mim assignado, Santa Anna vinte e oito de julho de mil oitocentos e trinta, O padre Jose Bernardino de Souza. Como testemunhas Carlos Baptista Leite= Jose Luiz Pereira= Como testemunha que este escrevi Antonio Lopes Cansado. Dispacho do Ministro= cumpra se e registe se salvo que algum nulidade ou prejuizo de terceiro. Pitangui dezasepte de agosto de mil oitocentos e trinta.    Pago de sello de tres folhas sento e vinte reis.  Carregados as folhas trinta e nove do Livro quinto.  Coelho= Cunha=       Termo de Aceitaçam da Testamentaria= aos dezasepte dias do mes de agosto de mil oitocentos e trinta annos nono da Independencia e do Imperio nesta Villa de Nossa Senhora de Piedade de Pitangui da fidelissima comarca do Rio das Velhas de Sabara em o cartorio de mim escrivam ao diante nomiado e sendo ahi comparesseu prezente Nicolau Coelho Duarte que o reconheço pello proprio do que trato e dou minha fe e por elle me foi ditto que aceitava a prezente testamentaria de seu falescido pay o capitam Custodio Coelho Duarte por primeiro testamenteiro no presente testamento supra e retro e se sugeitava a todas as leis testamentarias que regulam este juizo e todas as leis e provisoins que regulam este juizo com o protesto de vencer o premio ou vintena qual melhor lhe parecer alias convier sugeitando a sua pessoa e bens a tudo cumprir as dispoziçoins testamentarias que regulam este juizo e de como assim o disse abaixo se assigna perante mim de que para constar lavro este termo de aceitaçam e eu Ildefonso Joaquim Gomes da Cunha escrivam da provedoria de auzentes e reziduos que o escrevi. Nicolau Coelho Duarte.
Subscripto= Testamento do Capitam Guarda Mor Custodio Coelho Duarte feixado e cozido com sinco pontos de retros verde nove outros tantos pingos de lacre escarlate por huma e outra banda e para constar faço o prezente aos quinze de março de mil oitocentos e trinta e eu Joam Jose de Souza escrivam de Paz= Nam se continha mais couza alguma em o dito testamento que o contheudo aqui escripto e declarado que bem e fielmente aqui copiei do proprio testamento ao quem me reporto em man do testamenteiro que o tornou a receber o proprio testamento e de como com o proprio este ly corry confery consertey e achei estar conforme o original me asigno nesta Villa de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui da fidelissima comarca do Rio das Velhas de Sabara aos dezoito dias do mes de agosto do anno de Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e trinta annos nono da Independencia e do Imperio e eu Ildefonso Joaquim Gomes da Cunha escrivam da provedoria de auzentes que o escrevy confery e assigno , Ildefonso Joaquim Gomes da Cunha.



Paleografado por: Aureo Nogueira da Silveira
Digitado por: Alan Penido
Fotografia: Rugendas
Documento: Arquivo Histórico de Pitangui
Organização: Charles Aquino 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Escravidão: Parte I



ESCRAVIDÃO

Parte I

Grande centro de agricultura e pecuária que abastecia as zonas de mineração no período do ouro, tornando-se depois uma espécie de entreposto da região circunvizinha - Sant’Anna de São João Acima possuía grandes fazendas de criação e agricultura o que explica o número considerável de escravos que habitavam o seu território.
Coévos da Abolição calculam razoavelmente em cerca de um milhar a população que a Lei Aurea libertou. Isso, para um pequeno distrito perdido no ámago do sertão mineiro, dá uma ideia da importância econômica de Itaúna naquela época.
O comercio de escravos era feito com regularidade e em grandes proporções pela família de João Francisco, do Cortume, pela firma Moreira e Filhos e outros, sendo os maiores proprietários de escravaria o Cel. Manoel Gonçalves Cançado, da fazenda da Cachoeira, hoje Santanense; Cel. Quintiliano Lopes Cançado, da fazenda Antônio Jose de Siqueira e outros.
Gente de religião e dotada de bons sentimentos, os itaunenses sempre foram senhores compassivos para com os escravos.
Havia pequenas exceções, cuja fama, é justo notar, já nos chega um pouco exagerada pela tradição.
Assim é que contam horrores da fazenda da Bagagem, onde os escravos sofriam suplícios atrozes de uma senhora sem entranhas, que foi a esposa do fazendeiro Custódio Coelho Duarte.
Até há pouco tempo existiam efetivamente, na Bagagem, os instrumentos de castigo para os negros que, não suportando mais os sofrimentos, dizem que se atiravam no açude da fazenda, suicidando-se.
Contam que essa Sinhá, enciumada pela brandura com que o esposo tratava uma escrava chamada Bárbara, fez-lhe introduzir pimenta e dicoada de barrileiro   pela vagina; e que, tomada de dores atrozes, atirou-se no açude, afogando-se.


Fonte:
FILHO, João Dornas. Itaúna: Contribuição para a História do Município. Belo Horizonte. 1936, p.33-34.
Foto: Brasiliana Fotográfica

Construtor Argemiro


Construtor itaunense



Argemiro Ferreira da Silva, nasceu em Itaúna em 28 de junho de 1922, filho de Jacinto Ferreira da Silva e Maria Honória Ferreira. Teve cinco irmãos: Jose Ferreira da Silva; Maria Ferreira da Silva Franco; Vandeir Ferreira da Silva; Teodorico Ferreira da Silva (Sô Dorico); João Ferreira da Silva.
Sua vida profissional começou na construção civil, como aprendiz de seu pai, no soerguimento da atual Igreja Matriz, que teve a obra iniciada em 1934. Não demorou muito e se projetou na construção civil de capacidade e de muito profissionalismo devido ao seu trabalho honesto e de muita seriedade. Seus primeiros trabalhos foram a construção das casas da Vila Aurora na principal rua da cidade, o Colégio Sant’Ana e o Grande Hotel Itaúna.
Construiu também o Reservatório D’Água do alto do Cascalho, as casas populares da Reta de Santanense, o Clube União, o Orfanato de São Vicente de Paula e o monumento em homenagem ao Dr. Augusto Gonçalves de Souza, na Praça da Matriz. De suas mãos também saiu o primeiro prédio itaunense da época, onde fora instalada a Farmácia Nogueira, sendo muitos prédios construídos por ele em Itaúna.
Sua competência profissional o levou a ser conhecido fora dos limites itaunenses, sendo requisitado para trabalhar em Belo Horizonte e Brasília. Ergueu dezenas de prédios, ajudando a construir a bela e majestosa Brasília, nossa capital nacional. Pelo seu bom trabalho foi conduzido à política e se elegeu vereador e presidente da Câmara no mandato do prefeito Célio Soares de Oliveira. Argemiro foi um dos primeiros maçons de Itaúna, junto a grandes nomes de nossa cidade, vindo a falecer em 14 de dezembro de 1970.[1]
Argemiro nas suas horas vagas, era excelente músico, tocava instrumentos de sopro, sendo uma pessoa alegre e um verdadeiro brincalhão! [2] 

Fonte: Revista Cidade de Itaúna: Personalidades de Itaúna. Ed. Vile, 2003, p.8 [1]
Testemunho Histórico: José Waldemar [2]



Manoel Gomes Moreira


TESTAMENTO DO TENENTE MANOEL GOMES MOREIRA
1824


"Declaro que meu testamenteiro mandara diser oitenta missas por minha alma por alma de meus pais quarenta missas e por alma de meus escravos vivos e falecidos vinte missas e pellas almas do purgatorio des missas todas dittas pellos clerigos a disposição de meu testamenteiro"

"Deixo quartados[1] dous escravos Domingos e Mathias ambos pardos cada hum no vallor de cento e oitenta mil reis com obrigaçam de trabalharem na mesma fazenda the se pagarem[ .....................................] de vinte mil reis por anno the findarem os seos preços e pagos que meu testamenteiro lhes passando duas cartas de alforria."



Santa Ana Rio São João Acima
(Itaúna)
      

Registro do Testamento com que faleceu o tenente Manoel Gomes Moreira na Aplicação de Santa Anna deste termo a 28 de junho de 1824 de quem he testamenteiro o segundo Manoel Gomes Moreira.
In nomini domine folhas huma= Eu o tenente Manoel Gomes Moreira estando enfermo mas em meu perfeito juízo e entendimento faço este meu testamento e ultima dispozição de vontade pella maneira seguinte= Declaro que sou natural da Itabira do Campo freguezia da Villa Rica Bispado de Mariana filho legitimo de Aniceto Gomes Moreira e de Bernarda Fiusa de Mattos já falecidos= Declaro que sempre vivi no estado de solteiro e tenho tres filhos a saber Antonio Gomes Moreira e Manoel Gomes Moreira filhos de Margarida da Costa mulher solteira, e Teresa de Jesus filha de Genoveva mulher solteira esta filha a casei com Narciso Ribeiro de Sousa e a dotei somente com huma negra de nome Felicia que todos os tres filhos naturais os instituo por meus herdeiros legitimos= Rogo em primeiro lugar a meu filho Antonio Gomes Moreira em segundo lugar a meu filho Manoel Gomes Moreira e em terceiro lugar a meu genro Narciso Ribeiro de Sousa que por serviço de Deos a me fazerem merce queiram ser meus testamenteiros para o que os hei por abonados capases e [....................] para disporem de meus bens e cumprirem as minhas disposiçoens que são as seguintes= Declaro que meu corpo será involto no abito a disposição do meu testamenteiro a saber os clerigos que me acompanharem dirão missa de corpo presente depois dirão oitavario de missas cada hum por minha alma e enterrado dentro da capella da Senhora Santa Anna donde sou aplicado = Declaro que meu testamenteiro mandara diser oitenta missas por minha alma por alma de meus pais quarenta missas e por alma de meus escravos vivos e falecidos vinte missas e pellas almas do purgatorio des missas todas dittas pellos clerigos a disposição de meu testamenteiro= Declaro que deixo de esmolla trinta mil reis a Francisca Maria irman dos meus dous primeiros filhos e a minha sobrinha Porcina filha de meu irmão Jose Gomes falecido trinta mil reis de esmolla ao meu sobrinho Joam filho do ditto meu irmão tambem deixo trinta mil reis de esmolla= Deixo quartados[1] dous escravos Domingos e Mathias ambos pardos cada hum no vallor de cento e oitenta mil reis com obrigaçam de trabalharem na mesma fazenda the se pagarem[ .....................................] de vinte mil reis por anno the findarem os seos preços e pagos que meu testamenteiro lhes passando duas cartas de alforria= Declaro que deixo de premio a meu testamenteiro pelo seo trabalho dusentos mil reis e lhe concedo quatro annos para dar contas deste meu testamento= E por esta forma hei por feito e acabado este meu testamento e ultima desposição de vontade e rogo as justiças de Sua Magestade Imperial lhe de inteiro vigor e faça cumprir como nelle se contem e declara e roguei a Antonio Caetano Ribeiro que este o escrevesse e depois de ser por mim lido e pello o achar a meu contento me asignei nesta Fazenda do Mato Grosso ao primeiro de junho de mil oitocentos e vinte e quatro, Manoel Gomes Moreira. Eu que o escrevi a rogo do testador, Antonio Caetano Ribeiro e de setera. Aprovação= saibam quantos este publico instrumento de aprovação de testamento ou como em Direito melhor nome e lugar haja virem que sendo no anno de nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e vinte e quatro annos ao primeiro de junho do ditto anno nesta Fazenda do Mato Grosso da aplicação da Capella da Senhora Santa Anna do Rio de Sam Joam Acima  Termo da Villa de nossa Senhora da Piedade de Pitangui Comarca do Rio das Velhas e sendo ahi em casas de morada do Tenente Manoel Gomes Moreira onde eu tabeliam ao diante nomiado fui vindo pello ditto Tenente Manoel Gomes Moreira que o reconheço pello proprio de que dou Fe me foi dado este papel disendo me ser o seo solemne testamento que por mim neste acto lhe foi escripturado a seo rogo ultima e derradeira vontade e sendo lhe lido achara estar conforme havia ditado e que por elle revogava outro qualquer que antes tenha feito porque so quer que este valha e tenha seo devido effeito e vigor e me pedio lhe aceitasse aprovasse e aceitando o achei escripto em huma lauda de papel e parte de outra onde dei principio a esta aprovação e o numerei e rubriquei com a minha rubrica que dis Ribeiro e correndo pellos olhos lhe não achei borrão entrelinha e nem cousa que duvida faça e por achar o ditto testador enfermo mas de pe e em seo perfeito juiso e entendimento segundo as respostas que me deu as perguntas que lhe fiz por isso lhe approvo este seo testamento em tudo quanto posso em rasão do meu officio e sou obrigado e sendo de tudo testemunhas presentes Rafael Carneiro Leam Joaquim Jose Campos Manoel Telles da Silva Manoel da Costa Bravo Jose Antonio dos Santos todos reconhecidos de mim pellos proprios  de que dou fe e todos moradores neste termo e o testador se asigna perante mim Antonio Caetano Ribeiro tabelião de testamentos que o escrevi e asigno em publico e raso. Em tetemunho da verdade estava o signal publico, Antonio Caetano Ribeiro   Testador Manoel Gomes Moreira Testemunhas Rafael Carneiro Leam Joaquim Jose Campos Manoel Telles da Silva Manoel da Costa Bravo Jose Antonio dos Santos=
Abertura= Jose Bernardino de Sousa Presbitero Secular Capellam na Capella de Santa Anna do Rio de Sam Joam Acima, certifico que faleceo da vida presente o tenente Manoel Gomes Moreira com seo testamento e por estar distante da Villa de Pitangui dose legoas o abri em presença das testemunhas abaixo asignadas para saber o que determinava o ditto testamento sobre o seu funeral e por assim servindo paso este termo de abertura. Santa Anna vinte oito de junho de mil oitocentos e vinte e quatro, o padre Jose Bernardino de Sousa e de [...............] Venancio de Sousa Ribeiro Antonio Jose Lino Velho. Não aceito este testamento por em como dos que tenho Antonio Gomes Moreira. Pagou de sello oitenta reis carregados a folhas noventa e nove do Livro quatro a vinte sete de julho de mil oitocentos e vinte e quatro, Coelho Rates. Cumpra se e registe se, Pitangui vinte sete de julho de mil oitocentos e vinte quatro, Mourão.
Termo de Desistencia= aos vinte septe dias do mes de julho de mil oitocentos e vinte quatro annos terceiro da Independencia e do Imperio nesta Villa de Senhora da Piedade de Pitangui comarca do Rio das Velhas em casas de residencia do Capitão Domingos de Freitas Mourão vereador mais velho na forma da Lei e pella [.......] ausentes capellas e residuos com alçada no civil e crime onde eu escrivam ao diante nomiado fui vindo e sendo ahi presente Antonio Gomes Moreira que o reconheço pello que dou fe por elle me foi ditto que como primeiro testamenteiro nomeado no testamento retro desistia do mesmo como de facto desistido tem por não poder cumprir suas determinaçoens e de como assim o dise abaixo se asigna o termo de desistência perante mim João Silverio de Barros escrivam da provedoria de ausentes que o escrevi. Antonio GomesMoreira.
Termo de Aceitação= aos vinte septe dias do mes de julho de mil oitocentos e vinte quatro annos terceiro da Independencia do Imperio nesta Villa de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui Comarca do Rio das Velhas em casas de residencia do Capitão Domingos de Freitas Mourão vereador mais velho o presente anno nesta Villa e seo termo por elleiçam na forma da Lei e pello mesmo juis de Fora e Orphaons e provedor dos bens e fazendas dos defuntos e ultimamente capellas e resíduos com alçada no civil e crime onde eu escrivam ao diante nomiado fui vindo e sendo ahy presente Manoel Gomes Moreira que reconheço pello proprio de que dou Fe e por elle me foi ditto que aceitava a presente testamentaria para em tudo cumprir e de como de fato aceitado tem e de como assim o disse abaixo se asigna o presente termo de aceitaçam, eu João Silverio de Barros escrivam da provedoria de ausentes que o escrevi. Manoel Gomes Moreira. E não se continha mais cousa alguma em o ditto testamento que o contheudo aqui escrito e declarado que bem e fielmente o que copiei do proprio a que me reporto em mão do testamenteiro que aceitou a testamentaria que como este registei li corri conferi e achei conforme me asigno nesta Villa de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui Comarca do Rio das Velhas da Fidelissima Villa de Sabara aos vinte septe dias do mês de julho do anno de nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo terceiro da Independencia  e do Imperio de mil oitocentos e vinte quatro annos. Eu João Silverio de Barros  escrivam da provedoria e ausentes que o escrevi conferi consertei asigno João Silverio de Barros e o ditto por mim. Nada mais se continha em o ditto registo do testamento que o contheudo aqui escripto e declarado que tendo bem e fielmente para aqui trasllado do Livro numero quinto a folhas cincoenta e verso the folhas cincoenta e huma e verso tendo por bem do dispacho [.................................]. diante de[ .......................] e de como [..................] proprio Livro este trasllado li corri conferi achei  conforme me asignei nesta Villa de Nossa Senhora da Piedade de Pitangui da fidelíssima comarca do Rio das Velhas de Sabara aos dasasepte dias do mes de julho do anno de nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e vinte seis quinto da Independencia e do Imperio. Eu João Silverio de Barros escrivam da provedoria ausentes que escrevi conferi consertei asigno, Joam Silverio de Barros .

Paleografado por: Aureo Nogueira da Silveira
Digitado por: Alan Penido
Documento: Arquivo Histórico de Pitangui
Fotografia: Rugendas
Organização: Charles Aquino



[1]  O escravo “quartado” ou “quartudo” era aquele que realizava um acordo com o seu senhor para que a sua alforria fosse paga em períodos de quatro anos – daí a expressão quarto – ou mais. Estando quartado o escravo recebia uma “carta de corte” que lhe permitia viver de forma autônoma ao senhor. Esta foi uma prática mais comum nas regiões das áreas de minas do dezoito do que no restante da América portuguesa. (PAIVA, 1995, p. 97-98).

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Parteira Balbina



Balbina Fortunata da Silva, nasceu em 31 de março de 1902, em Itatiaiuçu, filha de Severiano Calixto da Fonseca e Maria Fortunata da Silva. Casou-se em Itaúna, em 22 de outubro de 1921, aos 19 anos, com José Alexandre de Souza, que era então lavrador e contava apenas 23 anos.
Da união entre eles nasceram quinze filhos, quatro dos quais falecidos ainda muito novos: Maia de Lourdes Viana, a Preta, viúva de Antônio de Araújo, que teve 9 filhos; José Alexandre de Souza, casado com Terezinha, que teve 13 filhos; Paulo Alexandre de Souza, falecido, casado em duas núpcias, pai de 10 filhos; Norma Fonseca de Souza, divorciada, sem filhos, a famosa “Norma da Escola Normal”; Edison da Fonseca, que foi casado com Iracema, pai de 7 filhos; Cleonice da Fonseca, casada com Carlos, mãe de 6 filhos; Oscar da Fonseca, falecido, casado com Lúcia Teixeira, pai de 4 filhos; Marlene Fonseca da Silva, solteira; Arlete Fonseca, viúva de José Nascimento, mãe de 3 filhos; Valdete Fonseca, solteira; e, Jarbas Fonseca de Souza, viúvo de Marlete, pai de 3 filhos.
Balbina era daquelas mulheres notáveis, até difícil de se encontrar hoje em dia! Guerreira, valente, viveu sempre para ajudar as pessoas, ainda que muitas e muitas vezes isso tenha exigido sacrifício dos filhos e até do marido, de quem nunca acobertava falta ou deslizes. Administrava o lar, a conduta do marido e a educação dos filhos com mão de ferro, mas, sem se esquecer nunca do amor e carinho que nutria por todos! A honestidade e a caridade eram os seus maiores predicados. Mal sabia ler e escreve, mas, aprendeu muito: na escola da vida foi “professora” com “pós-graduação e mestrado”. Enfrentou a vida com a valentia própria dos pioneiros ou desbravadores e nunca se comparou com pessoas, acima ou abaixo do que foi. Nunca se esmoreceu e nunca se ouviu dela uma só palavra de reclamação de enfrentar todos os desafios que a vida lhe colocou no caminho.
Nunca tomou uma atitude que pudesse render discriminação aos seus filhos. Pelo contrário, dizia sempre que, pela origem de todos, raça, cor, nível social ou escolaridade, não deviam aceitar qualquer preconceito ou discriminação. Dizia sempre para eles: somos pobres, mas devemos ser honrados e honestos.
Balbina foi parteira das mais conceituadas e solicitadas em Itaúna, ajudando centenas de cidadãos itaunenses a vir ao mundo. Acolheu em sua casa muitos doentes, pessoas mais pobres. Quantas e quantas pessoas com enfermidades ela socorreu, encaminhando a médico e hospitais ... A porta de sua casa estava sempre aberta, sem qualquer distinção que fosse. Era também arrumadeira de defuntos, o que fazia com todo o respeito à família, resguardando-se naquele momento de dor dos familiares.
Gostava muito da política e participava ativamente dela aqui em Itaúna. Enfrentava abertamente os adversários políticos em favor de seus candidatos preferidos. Porém, costumava dizer, sempre, que tinha adversários políticos, mas nunca políticos inimigos. Não se conformava com injustiças ou mal tratos aos que se mostravam fender seus direitos ou a luta pela vida.
A criação de seus filhos foi um capítulo à parte em sua vida. Entendendo que o marido não tinha como criar sozinho uma prole tão grande, foi à luta para ajudá-lo. Viajava pelas redondezas comprando ovos e frangos que ia revender em Belo Horizonte, onde conquistou um grande círculo de amizades. Era a “Dona Balbina”, que podia entrar em qualquer mansão belorizontina, sendo recebida por pessoas de alto nível. Nessas casas, era convidada a almoçar e assentar-se à mesa com os donos e seus filhos, sendo tratada com carinho e respeito. Nessas viagens a Belo Horizonte há de se destacar um fato peculiar: Balbina detestava sapatos ou chinelos e, por muitas vezes, foi e voltou a Belo Horizonte descalça.
Na capital mineira tornou-se amiga de grandes chefes políticos, como Israel Pinheiro e Tancredo Neves, dos quais frequentava a casa toda vez que podia. Para comprar, tinha crédito em toda a cidade, pois sua honestidade a precedia: não havia uma casa de comercio que não lhe fiasse qualquer mercadoria, pois a certeza do recebimento era total. A honestidade financeira e de princípios era sempre a maior lição que ela achava que tinha de passar para os filhos. Estes, continuaram a honrar o predicado maior da mãe, tornando-se todos cidadãos íntegros, que muitos contribuíram, cada um a seu modo, para o desenvolvimento e o crescimento de nossa Itaúna.
Destacou-se como uma pessoa que nunca levava desaforos para casa -  era brigadeira mesmo! -  masque, inversamente, nunca deixou um inimigo para trás. Hoje, mesmo depois de tantos anos de seu falecimento, é lembrada com carinho por muitas pessoas itaunenses. Deu grande exemplo de vida e deixou para os filhos um nome íntegro, orgulho de toda a prole.
Foi valente até mesmo na morte, nunca se deixando abater pela doença que a consumiu pouco a pouco, por mais de uma no. Falecida em 20 de dezembro   de 1975, aos 73 anos de idade, seu sepultamento foi dos mais concorridos na cidade. Os filhos se assustavam com a quantidade de gente que se aproximava e dizia ter recebido uma ajuda ou favor da Balbina, pessoas que eles mesmo desconheciam como favorecidos por ela.
Nasceu pobre e dizia ter chegado ao fim de sua vida rica, pois havia conquistado um teto para deixar para que os filhos morassem, muitas amizades e se tornara uma vencedora frente aos obstáculos cotidianos.
Só e somente a morte foi capaz de abatê-la na sua luta pela vida!
Parecendo que estava adivinhando a sua hora, ela publicou na antiga FOLHA DO OESTE, um agradecimento:
“Obrigado Senhor! Pelos 73 anos que me deste de saúde, sem nenhuma dor de cabeça, 54 anos de casada, criando meus 11 filhos, dando morada para todos, me destes tudo que desejei. Eu pedi quando me desse uma enfermidade me desse também paciência e até isto eu recebi. Quando eu tiver de morrer, dê-me uma doença que eu não sinta muita dor, pois não irei lutar contra o Senhor!"
Balbina do Severiano
Itaúna, 5 de setembro de 1975 


Fonte: Revista de Itaúna: Mulheres Notáveis. Ano IV– Ed.05,2007, p.5.